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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sonhar




Sonhar,
Como barco navegando em mar revolto
Quando ventos de pesadelo assolam os mares de emoções
E obrigam a fechar as comportas

Sonhar,
Mesmo quando as nuvens correm rápido
Em céus de chumbo, zangados e troantes
E os pássaros recolhem à praia,
Parados, absortos e perdidos em conjecturas
Sem saberem que são sábios por saberem parar.

Sonhar,
Em dias de nunca
Sem sol, sem brisa, sem ...
Esperando o arco-íris que tarda
E num grito de apelo à liberdade
Voar sobre a tempestade, conhecendo limites
Arriscando vidas que não se tem

Sonhar
Que se É, Tudo, Todo
Aguardando despertar no tempo sem Tempo
No Agora desconhecido e venturoso

Sonhar, porque vivo de quimeras,
Enquanto o Fogo queima.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sê...

(Odilon Redon, O Ancião Alado)


Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale, mas sê o melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva e dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada, sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas."

Pablo Neruda

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Os olhos do poeta


(Pintura: Ostad Mahmoud)

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas,
mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.

Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.

Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.

E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.



Manuel da Fonseca, Poemas completos

(1911-1993 - Poeta, escritor neo-realista, fez parte do Novo Cancioneiro, Presidente da Sociedade Portuguesa dos Ecritores). 

sábado, 6 de abril de 2013

Cântico das Palavras

(Foto: Joana)


Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962

(Poetisa portuguesa do século XX (1919-2004), de origem dinamarquesa do lado paterno, nasceu no Porto, que nunca abandonou. Casada com Francisco de Sousa Tavares, foi mãe, poetisa, contista... Recebeu vários prémios literários, homenagens e reconhecimento. Apaixonada pela vida, dedicou grande parte das suas palavras ao Mar).

domingo, 24 de março de 2013

Hoje: Mário de Sá Carneiro

(Odilon Redon: Orpheu)
Como eu não possuo


Olho em volta de mim. Todos possuem
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...

Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim --- ó ânsia! --- eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

Mário de Sá Carneiro

Poeta, contista e ficcionista, membro da Geração d'Orpheu, nasceu em Lisboa, (1890 - 1916). Inadaptado aos seu tempo, depois de Coimbra, estudou em Paris, correspondeu-se com Fernando tornando-se íntimo com este. Sá Carneiro, Pessoa e Almada Negreiros editam a Revista Orpheu, nascendo assim o primeiro grupo modernista português (o modernismo, influenciado pela correntes vanguardistas da época, tinha como objectivo escandalizar a sociedade burguesa). O Grupo d'Orpheu marcou o seu tempo e ainda continua a incutir o seu timbre.



domingo, 10 de março de 2013

Encontros de Poesia




Hino à PAZ

Sou eu, és tu, ou outro qualquer.

Não importa quem és, homem ou mulher.

Importa sim, amar-te como Deus quer!

E se o amor é respeitar e bem querer.....

Então a nossa amizade vai durar

até Deus nos chamar

e, a felicidade eternamente nos conceder.


Ontem,

Foi Hino, Cântico de Vida, partilha, emoção, paixão, Fogo… Dádiva de poeta da alma, declamado pelo amor-companheira, transmitida em movimento circundante, re-nascido na Arte de dizer, fonte de amar.

Foram muitos os temas abordados por Angelino Pereira, desafiado pelo Armando – companheiro de longa data. A sala uniu-se numa energia feita de palavras sentidas, ditas tímida ou com a certeza da alma….

 Angelino falou da dor de dar à luz uma obra nascida das suas entranhas, do amor da concepção, do sofrimento do abandono à vida desse filho da alma que é um livro.


Falou de passados que permitiram a força e o valor apenas adquiridos pela vontade do querer. E tudo envolvido, amassado no amor.

Falou da sociedade presente, da falta de solidariedade, fantasma presente, tantas vezes ocultado por estratagemas e desculpas.

Falou da solidão, não aquela que por vezes buscamos para marcarmos encontro com o nosso Norte, mas da outra, aquela que dói, penetra até aos ossos. Aquela que nasceu nos meandros desta sociedade que tem e não é. Aquela que vem no tempo que passou sem se dar conta, fechados no quotidiano de ilusões egocêntricas. Enfim, diz Angelino Pereira:

                     Não vou ficar!

                     Sei lá por onde ando 

                     Na contagem dos meus passos 

                     Empoeirados no tempo!

                     Sei lá o que faço

                     Na miragem de enlaços

                     Caminhada de alento

                     Sei lá p’ra onde vou

                     Nem sei mesmo onde estou

                     Quando aqui pareço estar

                     E se fico onde estou

                     Que importa p'ra onde vou

                     Sei que não vou cá ficar!

                     (Poema publicado na Antologia da Ed.Cidade Berço "Poetas de Sempre II Volume - Setembro 2001).



A tarde passou depressa, demasiado, no tempo que não se dá conta, nesse Intervalo que se abre de quando em quando, sempre que mergulhamos, em voo livre, no Infinito da Criação.

E todos fomos poetas, uns porque tornaram Palavra o âmago do sentir, outros porque o coração vibrou em consonância e Souberam o poeta….

Um agradecimento muito especial ao Armando Guedes que permitiu este encontro, e que tanto deu....


A todos bem-hajam!







MINHA FONTE DE PRAZER

             Meu encanto minha vida

             Minha fonte do prazer

             Minha loucura desmedida

             Nos meus tempos de lazer

Nas ondas dos teus seios

Nas curvas das tuas ancas

Entre folhos nos permeios

Com teu corpo me encantas


E na vontade de viver

Que eu procuro sem cessar

É na fonte do prazer

Que eu volto a renascer







Os poemas são, é óbvio, de Angelino Pereira







(Fotografias: Ernesto Henriques, de telemóvel)



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013





Amar-te-ei!
Mesmo que o Fogo
 Se apague no Sopro
Dos Ventos contrários.

Amar-te-ei,
Mesmo na tua ausência…
E ver-te-ei,
No rosto doce da Lua
E no sorriso das Estrelas.

No Templo do Amor,
Um dia, Te reencontrarei:
Eu serei Tu,
Tu serás EU,
E amar-te-ei … em Mim!

Lis

terça-feira, 15 de janeiro de 2013




Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim o sucessivo
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos de espuma

Por isso nos museus da Grécia antiga
Olhando estátuas frisos e colunas
Sempre me aclaro mais leve e mais viva
E respiro melhor como na praia

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, 
in O BÚZIO DE CÓS E OUTROS

POEMAS (Caminho, 1977)


(Enviado por J. Figueiredo)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Solemnia Verba

(Gustave Moreau)



Disse ao meu coração: Olha por quantos 

Caminhos vãos andámos!
Considera 
Agora, desta altura, fria e austera, 

Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos! 

E a noite, onde foi luz a Primavera! 

Olha a teus pés o mundo e desespera, 

Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente 

Na escola da tortura repetida, 

E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor! 

Viver não foi em vão, se isto é vida, 

Nem foi demais o desengano e a dor.

                                                 
Antero de Quental

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Continuando em poesia...




Dizem que os poetas são os tecedores de céu,
Tricotam as palavras como flores
Deixando atrás de si mares de perfumes

Pintam os momentos
Com cores da alma
Retratos do que são e nos deixam em memória.

Cantam músicas de sons
Que por magia se juntam etéricos ou infernais
Num enlace perene, dança infinda

Como gostava de ser poeta,
Deixar rosas pelo caminho,
Perfumes de encantos quentes e exóticos,
Mares e memórias de fantasias de céus.

Pintar a alma com cânticos dos cânticos,
Som das esferas primordiais.
Palavras não ditas nem escritas...
Apenas, Ser Poeta!


(Video: O mar e tu, Dulce Pontes e Andrea Bocelli)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Iniciação

(Farol de Saturno - Mestre Lima de Freitas)


@

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
....................................................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
                  Vem a noite, que é a morte,
                  E a sombra acabou sem ser.
             Vais na noite só recorte,
         Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro 

Tiram-te os Anjos a capa. 

Segues sem capa no ombro, 

Com o pouco que te tapa.
                  Então Arcanjos da Estrada 

                   Despem-te e deixam-te nu. 

                          Não tens vestes, não tens nada : 

                    Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna, 

Os Deuses despem-te mais. 

Teu corpo cessa, alma externa, 

Mas vês que são teus iguais. 

.................................................... 

A sombra das tuas vestes 

Ficou entre nós na Sorte. 

Não 'stás morto, entre ciprestes. 

....................................................

Neófito, não há morte.


Fernando Pessoa

sábado, 24 de novembro de 2012

Prece

(O Encoberto do Mestre Lima de Freitas)

            Senhor, a noite veio e a alma é vil.
            Tanta foi a tormenta e a vontade!
            Restam-nos, hoje, no silêncio hostil,
            O mar universal e a saudade.

                              Mas a chama, que a vida em nós criou,
                              Se ainda há vida, não é finda,
                              O frio morto em cinzas a ocultou:
                              A mão do vento pode erguê-la ainda.

                                                     Dá o sopro - ou desgraça ou ânsia -,
                                                     Com que a chama do esforço se remoça,
                                                     E outra vez conquistemos a Distância -
                                                     Do mar ou outra, mas que seja nossa!


In Mensagem,
Fernando Pessoa

segunda-feira, 26 de março de 2012

Memória



Nasceste sorriso,
Partiste flor,
Deixaste momentos.

Escolheste a Luz
Pois sabias que por lá terias a felicidade
Que procuravas por cá,
Onde deixaste a saudade
Nos corações de quem te amava.

Em nós a lembrança
Do que és, sorriso...
Comemoramos a vida, 
Agora também em teu nome,
Flor de primavera que és.

Não choro, não grito,
Pois não estás ausente no coração.
Partiste, sem partir,
Pois por cá deixaste
A carapaça que transportavas,
Por vezes com dor.

Partiste, sem partir,
Para o país da Vida e da Luz,
Para o Amor que faz sentido,
Num grito de libertação mudo,
Mas ouvido pelos Anjos e Fadas
Do mundo a que sempre pertenceste.

Bem-hajas por nos teres visitado na Terra!


(Para a Alice, com Amor)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Fome



                       Eu queria ser o pão
                       Que com a mão é feito
                       Queria ser o coração
                       Que bate nesse pequeno peito

                            Tantos dias sem comer
                            Tu passas sem reclamar
                            Tantos dias a sofrer
                            Nem lágrima tens para chorar

                                 Brincas com uma pedra
                                 Ou talvez com um pau
                                 Tu és a feia imagem
                                 Deste mundo mau

                                     Não tens culpa
                                     Mas estás a sofrer
                                     Em meu nome peço desculpa
                                     Por não poderes crescer

                                       Ó Deus
                                       Pergunto-me onde andará
                                       Põe os olhos nesta criança
                                       Que à fome morrerá


                                                                    Elísio Coelho (Eu)

domingo, 29 de janeiro de 2012

Nas minhas mãos



Tenho, nas minhas mãos,
dois caminhos, duas decisões,

mesmo quando tudo parece desabar cabe a mim decidir,
 
entre rir ou chorar,
 entre ir ou ficar,
entre desistir ou lutar. 

Se o mar está revolto, posso ficar na praia ou sair 
para pescar e,
 talvez,
 nunca mais voltar.

Tenho, nas minhas mãos,
 o bem e o mal
e entre eles 
poucos pensamentos
um diz para fazer sem culpa, 

o outro pensa, reflecte e pede para esperar. 




Enquanto o mundo se perde em erros,
posso manter-me sereno,

sem medo
porque tenho a chave da minha vida nas minhas mãos. 

Então, hoje, sinto-me mais forte,
pois atravessei os desertos da alma

amei quem não me amou
 e deixei de lado quem muito me amava.




Atravessei caminhos nem sempre floridos,
que 
deixaram marcas profundas em mim
mas amei e fui amado.

Por isso, tenho nas minhas mãos bem mais do que a vida

tenho a dúvida e a certeza,
a esperança e o medo,

o desejo e a apatia,
o trabalho e a preguiça. 




E dou-me ao direito de errar 
sem me cobrar e

acertar sem me gabar
porque descobri
no caminho incertoda vida,

que o mais importante é o decidir 
e decidi,
de uma vez por todas

ser simplesmente feliz
e esse caminho não tem volta.

 


(desconheço o autor)